por Ilaene Schuler
E se o nosso maior erro ao olhar para a cruz for reduzi-la apenas ao perdão dos pecados?
Talvez tenhamos pregado a cruz de forma tão individual que esquecemos o povo que ela veio formar.
A cruz perdoa pecados, sim. Mas, em João 17, Jesus não está pensando apenas em indivíduos salvos. Ele está pensando em um povo.
Um povo que seria guardado. Um povo que seria santificado na verdade. Um povo que viveria em unidade. Um povo que revelaria ao mundo que o Pai enviou o Filho. Um povo que seria enviado ao mundo, assim como Ele foi enviado.
Ou seja, em João 17, Jesus nos mostra que sua morte na cruz não teria como resultado apenas pessoas perdoadas indo para o céu um dia. Sua entrega formaria uma comunidade. Sua cruz formaria um povo. Sua obra geraria discípulos que viveriam juntos, permaneceriam na verdade e participariam da missão de Deus no mundo.
Por isso, talvez uma das frases mais importantes que precisamos recuperar hoje seja esta: a cruz não apenas nos salva. A cruz nos reúne. A cruz nos forma. A cruz nos envia.
E isso muda profundamente a maneira como entendemos a igreja.
Porque, quando olhamos para João 17, percebemos que a igreja local não deveria ser apenas um lugar onde pessoas frequentam cultos, assistem mensagens e participam de atividades religiosas. A igreja local deve ser a expressão visível desse povo que Jesus pediu ao Pai. É ali que a oração de Jesus precisa ganhar forma concreta.
É ali que pessoas devem ser santificadas na verdade, devem ser curadas e alinhadas em amor, ali que discípulos devem ser formados, que vidas devem ser preparadas para serem enviadas ao mundo.
Então, quando falamos sobre igrejas que fazem discípulos, não estamos falando de uma estratégia opcional. Não estamos falando de mais um ministério entre tantos outros. Estamos falando da própria coerência da igreja com aquilo que Jesus morreu para formar.
Porque uma igreja pode ter agenda, eventos, departamentos, estrutura e até crescimento numérico. Mas ainda assim pode não estar formando o povo que Jesus descreve em João 17.
Cumprir a Grande Comissão não começa quando enviamos missionários. Cumprir a Grande Comissão começa quando a igreja local entende que o discipulado não é um programa, é a sua cultura.
Jesus não morreu para que o discipulado ocupasse um canto da igreja. Jesus morreu para formar um povo inteiro. E isso significa que o discipulado precisa atravessar tudo: a liderança, a pregação, os relacionamentos, a vida familiar, os pequenos grupos, a formação de novos líderes, a missão, a própria cultura da comunidade.
Porque toda igreja forma pessoas para alguma coisa. A pergunta é: para quê? Forma consumidores religiosos? Forma membros dependentes? Forma voluntários cansados? Ou forma discípulos de Jesus, que aprendem a obedecer, vivem em comunhão e ajudam outros a seguir o mesmo caminho?
A igreja local cumpre a Grande Comissão quando o discipulado deixa de ser um programa e se torna a cultura de um povo formado por Jesus, reunido por Jesus e enviado por Jesus.
Ilaene Schuler é discípula de Jesus, esposa de Daniel Vargas, missionária Sepal e Diretora do Instituto IIFD, do qual o ministério Igrejas Discipuladoras faz parte. Atua no Brasil e na América Latina servindo igrejas por meio do Movimento Igrejas que Intencionalmente Fazem Discípulos (IIFD).



