“Restitutio Quae Sera Tamen”

Um convite à “restauração, ainda que tardia”!

Por Luiz Pedro Alves da Silva Neto

Aqueles eram dias difíceis e o clamor por liberdade se ouvia em todo império. A opressão advinda pela cobrança desmedida das altas taxas de juros e dos impostos — o quinto e a derrama — foram o ápice da insatisfação. Não tinha como ficar assim. Alguma coisa precisava ser feita. Antes que fosse tarde demais.

O desejo por liberdade inspirado nos ideais de Independência da América do Norte (1776) e da Revolução Francesa (1789) movia um grupo de insatisfeitos a buscar a independência do Brasil do domínio português, que olhava a colônia apenas como fonte de extração de recursos, impondo uma vida miserável e oprimida à colônia.

Foi aí que vieram os insurgentes. Homens do povo que sofriam com a opressão: um alferes, um tropeiro e um minerador; dois padres; dois coronéis (donos de propriedades rurais, ricos e abastados); dois poetas e um advogado. Homens comuns que compunham a sociedade. Gente do povo, sofrendo com o povo. Todos insatisfeitos. Eles, os insatisfeitos, sempre existirão em meio à opressão e dor. Os inconformados são os que pagam o preço pela mudança.

“Os inconformados são os que pagam o preço pela mudança.”

Enquanto o não cumprimento do pagamento dos impostos devidos poderia acarretar, inclusive, no exilio em colônias africanas, o preço pela insurreição seria a morte por enforcamento.

Descobertos — denunciados pelo governador Joaquim Silvério dos Reis, que buscava o perdão das dívidas de sua província —, os inconfidentes foram presos. Um deles, o principal insurgente, depois de inicialmente negar o fato, assumiu para si toda a responsabilidade, inocentando os demais companheiros. Seus amigos foram exilados em colônias africanas; já ele foi morto por enforcamento seguido de esquartejamento. Seu nome: Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Morre o homem, mas os ideais de independências não morrem com ele.

Bandeira do Estado de Minas Gerais. A expressão em latim “Libertas quae sera tamen”, lema da Inconfidência Mineira (1789), significa “Liberdade ainda que tardia”.
Dias difíceis

Vivemos dias difíceis tal qual o tempo da inconfidência mineira. Nossa opressão não vem de uma colônia que nos quer tirar o que extraímos com muita luta. No entanto, muitos de nós, líderes, temos pago um alto preço para permanecer no ministério.

Os dados que se mostram sobre a liderança nos Estados Unidos — e julgo que não será diferente no Brasil e no mundo — são assustadores. Uma pesquisa feita em 2009 pelo Instituto Fuller, pelo Instituto de Pesquisas George Barna e pelo site Pastoral Care Inc. nos dão conta de que, entre outras alarmantes estatísticas, temos:

  • 70% dos líderes eclesiásticos dizem que sofrem de baixa autoestima;
  • 40% relatam ter conflitos com membros da igreja, pelo menos uma vez por mês;
  • 40% afirmam que pensaram em deixar o pastorado nos últimos três meses;
  • 70% não têm alguém que consideram um amigo próximo;
  • 50% acreditam que seu ministério não vai durar mais 5 anos;
  • 85% disseram que seu maior problema é que eles estão cansados de lidar com pessoas problemáticas e/ou descontentes, como presbíteros, diáconos, líderes de louvor, equipes de louvor, outros líderes e pastores auxiliares;
  • 45,5% dos pastores dizem que estão deprimidos ou tiveram um quadro de burnout e, se pudessem, tirariam uma licença médica por algum tempo.

Tais resultados foram amplamente divulgados e comentados, servindo como dados factuais para artigos, debates e palestras no Brasil e no exterior. O que os números denotam é uma realidade preocupante: pastores, missionários e famílias cansados, estressados, deprimidos, frustrados, derrotados, profundamente doentes e, em alguns casos, cometendo suicídio.

Precisamos de restauração, ainda que tardia

De que restauração estamos falando? A melhor definição para isso vem de David Kornfield, na Bíblia do Discipulado (SBB), pg.1788: “A restauração da alma ferida é o: reconhecer nossas feridas, defesas e responsabilidades; experimentar Jesus levando sobre si essas feridas; receber o perdão e a libertação de Deus; e poder transmitir o mesmo para os que nos machucaram e abusaram de nós.

Caminhar doente é sair contaminando outros por onde passamos. Há muito, sabíamos disso, mas a COVID-19 nos mostrou essa verdade de forma clara. Em países de primeiro mundo, a preocupação legítima e os cuidados necessários tem como foco a completa restauração dos que estão doentes, dando-lhes subsídios para que recebam tratamento adequado até que possam voltar ao convívio normal em sociedade. Mas isso não tem acontecido na igreja, não pelo menos em relação aos líderes que padecem doenças emocionais ou que estão com a saúde afetada por causa do esgotamento físico e mental.

“Caminhar doente é sair contaminando outros por onde passamos.”

Muitos pastores e líderes, mesmos adoecidos, seguem ministrando até o ponto de provocar escândalos ou tirar a própria vida para que se vejam livres do problema que os aflige.

O Dr Roberto Aylmer, nobre psiquiatra fluminense, ao falar sobre a síndrome de burnout em pastores, atesta que muitos pastores e líderes que chegam em seu consultório já chegam na última etapa — ou fase — do burnout. Chegam com ideação suicida e envolvidos em vícios estarrecedores que só mencionar seria um escândalo. Como ele disse certa vez: “para se livrar da situação, o líder provoca o escândalo, porque, com a descoberta do escândalo, ele é afastado das suas funções e, assim, livra-se do problema”.

Restauração é algo urgente!

Em 24 de maio de 2015, um trágico acidente aéreo chocou o mundo tal as circunstâncias e a conclusão do inquérito. Um copiloto de 27 anos, que estava em depressão profunda e não foi devidamente tratado por sua companhia, ao aproveitar a saída do piloto da cabine do avião, um Airbus A320, decidiu jogar a aeronave de encontro aos Alpes Suíços, levando à morte 140 passageiros e seis tripulantes. Assim terminou o voo 4U.9525, da Germanwings. O mundo ficou chocado e quis explicações para tal acidente.

Esse fato nos leva a refletir seriamente: quantos pastores e líderes, por estarem em depressão — ou outra doença emocional séria — não estão fazendo o mesmo? Quantos ministérios que voam alto não estão sendo jogados contra as montanhas e sendo destruídos por conta do adoecimento de seus líderes? Quantas vidas estão sendo ceifadas pela doença de quem as lidera?

Isso precisa acabar. A restauração precisa chegar a quem está sofrendo. E já tem chegado. Já faz algum tempo que, preocupados com a situação, líderes de denominações, instituições missionarias e diretores de seminários começaram a desenvolver programas de ajuda que visam à restauração da liderança da igreja. Ouvimos de vários ministérios voltados para a cura e restauração, os quais têm promovido excelentes resultados ao lidar com os feridos.

O processo de restauração

O processo da restauração se dá quando a pessoa reconhece que precisa de ajuda. Ela precisa reconhecer seu estado de saúde física, emocional e espiritual e, sendo honesta consigo, buscar a ajuda necessária.

Isso é muitas vezes impossível quando se está sozinho. Por essa razão, é importante que o líder tenha amigos, companheiros de caminhada, que o ajudem a perceber quando está adoecido ou adoecendo.

No texto de Isaías 61 — o mesmo texto que Jesus leu na Sinagoga em Nazaré (Lc 4) — a restauração é para os que estão presos (cativos), em luto, endividados, destruídos… Aquele que acha que está bem nunca procurará restauração. A restauração é para quem sabe — ou reconhece — que está doente.

Abe Huber, nobre pastor discipulador, líder do Ministério Apostólico MDA, disse que é melhor confessar uma tentação que confessar um pecado. Muitos, por não terem um lugar onde confessar uma tentação, findam caindo no pecado.

Os meios da restauração são diversos. Deus não está preso a uma forma ou programa. Ele é o mais interessado na restauração do ser humano, seja ele quem for, e vai usar de todas as formas para que isso aconteça. Como Ele o faz?

  1. Deus vem pessoalmente porque Ele se importa conosco. Porque não é propósito dEle deixar o homem na mão. Foi assim desde o Jardim do Éden (Gn 3), quando Deus foi ao encontro do homem após a queda.
  2. Deus usa seus anjos ministradores. A Bíblia diz que os anjos são ministros a serviço dos salvos. A Bíblia está repleta de anjos ministrando a pessoas que precisavam de conforto, direção, livramento etc. O caso que mais me chama atenção aconteceu após a tentação de Jesus, quando os anjos vieram e lhe serviram (Mt 4.13).
  3. O trabalho pessoal do Espírito Santo, confrontando, disciplinado, restaurando etc. Ele é o paracletos (consolador) enviado pelo Pai para ministrar aos seus (Jo 14.16- 26; 16.7-14).
  4. Pessoas que são separadas por Deus para intervir na vida dos outros, investindo tempo, talento, amor e cuidado. Foi assim que Barnabé, o “filho da Consolação”, fez com Saulo de Tarso, com João Marcos e, imagino, com outros que caminharam com ele.
  5. A igreja comunidade, que é ambiente de cura e restauração, porque é nela que o ser humano é chamado a viver os mandamentos recíprocos, em relacionamentos comprometidos e saudáveis.
  6. Situações específicas: ao ouvir ou entoar um cântico, ao vivenciar um incidente, ao contemplar a natureza, ao ouvir um testemunho, entre outras experiências.

Submeter-se ao processo

Sem sombra de dúvida, o líder doente precisa buscar ajuda efetiva e se submeter a ela. Às vezes, procuramos o médico, mas não nos submetemos ao tratamento. Nesse sentido, a restauração é um processo, não um ato isolado. Para alguns, levará mais tempo do que para outros. Mas quem quiser restauração terá que passar pelo processo.

O Dr Mark Laser (autor dos livros no Altar da Idolatria Sexual e Curando as Feridas do Vicio Sexual), dando seu testemunho pessoal de como venceu o vício em sexo, fala de ter ficado internado numa clínica de recuperação por dois anos e, ao sair desse programa de dois anos, foi orientado por seus terapeutas a passar o restante de sua vida prestando contas semanalmente a dez pessoas sobre como estava em seu processo de restauração. Tal prestação de contas, relação de confiança, acolhimento e acompanhamento é algo salutar, benéfico e terapêutico.

Infelizmente, muitos só buscam ajuda quando já perderam a saúde, a família e o mistério. Outros se fecham e sucumbem à crise. Não deixe para quando for tarde demais. Encontre um trabalho sério que possa ajudá-lo e dê um passo para a restauração. Seja por qual motivo for, seja qual for a área de sua vida, não postergue. Busque auxílio.   

Nós, do LIMIAR e de Homens Mentores e Mulheres Mentoras, podemos ajudá-lo!

Busque a restauração, ainda que tardia.

Luiz Pedro Alves da Silva Neto
Pastor e psicólogo. Líder do Ministério LIMIAR (acolhimento, restauração e renovo). Membro da EEN MAPI.

PERGUNTAS PARA REFLEXÃO

  1. O que o oprime hoje? Do que você é escravo? De que forma você enxerga que essa situação começou? Quais seriam os passos iniciais para a cura?
  2. Você sente que vive em sujeição? Como ela acontece? Como poderia mudar esse cenário de forma inteligente, assertiva e responsável? Quem poderia mentoreá-lo e acompanhá-lo?
  3. Coloque em um papel tudo o que ofusca a sua liberdade, paz e alegria. Ore a respeito. Ao fazê-lo, estabeleça um novo estilo de vida e pondere os passos para alcançá-lo.
  4. Quais seriam os ministérios ou profissionais que poderiam apoiá-lo em seu processo de restauração? Como poderia contatá-los e iniciar uma interlocução frutífera e saudável com tais pessoas e/ou serviços?
  5. Como poderia iniciar uma nova fase em sua vida neste exato momento, ainda que o primeiro passo seja extremamente simples? Ore a respeito e partilhe seus pensamentos, angústias, objetivos e sonhos com alguém de confiança.

Clínicas de Restauração do Ministério LIMIAR

O Ministério LIMIAR, com base em Natal (RN), promove Clínicas de Restauração nos quais cerca de quatro a cinco famílias pastorais e missionárias são recebidas para um tempo de acolhimento, restauração e renovo. Durante treze dias, os acolhidos são atendidos por médicos, psicólogos, conselheiros pastorais e outros profissionais da saúde, que proporcionam cuidado integral aos participantes.

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