por Ilaene Schüler
Pastores, líderes, discípulos e discipuladores precisam ser mestres em reconciliação liberando perdão e pedir perdão. Seremos julgados com maior rigor e se não soubermos como resolver isso (Tg3.1,2a), perderemos nossa autoridade espiritual e moral para liderar, ensinar e discipular as pessoas. Precisamos entender o grande poder espiritual do pedir e liberar perdão.
De forma geral, nada pode mudar o passado. Nossos erros, pecados e defeitos já revelados deixaram marcas e sequelas, às vezes profundas, especialmente em nossas famílias e as pessoas mais próximas a nós. Mas existe uma ferramenta ou arma espiritual que pode mudar o passado! O perdão. O perdão quando for autêntico, espiritual e divino, acaba tendo o poder de levarmos a reinterpretar o passado e perceber Deus agindo ainda através de nossas falhas ou as falhas de outros. Foi isso que aconteceu com José quando no quarto choro dele, ele liberou a dor com gritos, tirou a máscara e se reconciliou com seus irmãos (Gn 45.1-4). Até ali, lembrar do passado trouxe apenas dor para ele (Gn 42.9). Mas, havendo resolvido sua dor e perdoado seus irmãos para se reconciliar com eles, ele começou a perceber o passado de forma diferente. Quatro vezes ele declarou que Deus estava no meio de todos os acontecimentos ruins do passado, agindo com propósitos eternos (Gn 45.5-9). Ele mudou de ser amarrado pelo passado para ser abençoado e liberado por ele. Os fatos históricos não mudaram, mas sua perspectiva e o poder desses fatos mudaram dramaticamente.
Quantas vezes ouvimos outros dizerem, ou nós mesmos dizemos, que pedimos perdão, mas nada mudou. Ou que outra pessoa pediu perdão, mas nada mudou. Sem perceber, estamos reconhecendo que temos a “aparência de piedade, mas negando o seu poder” (2 Tm 3.5). “O Reino de Deus não consiste de palavras (de perdão), mas de poder (de perdão)” (1 Co 4.20). Eu acrescentei os parênteses. A razão que nosso perdão não é eficaz e poderoso é porque pedimos errado. Como Tiago diz, “Quando pedem, não recebem, pois pedem por motivos errados…” (4.3).
A seguir temos três princípios de como pedir perdão para que seja realmente autêntico, espiritual e divino com efeitos transformadores. É um perdão profundo, não superficial. É um perdão que exige mudanças internas (dentro de mim) para ter mudanças externas (nos relacionamentos). É um perdão caro, não barato. Muitos não estão dispostos a pagar o preço desse perdão e continuaram sem experimentar o verdadeiro poder do perdão.
- Arrepender.
- Pedir perdão.
- Fazer restituição.
Vamos ver cada um deles mais de perto:
- Arrepender.
Perceba que o pecado é principalmente contra Deus. Nossa tendência é ser pego em algum pecado, erro ou mal-entendido e nos esforçar para resolver isso com a pessoa. Não percebemos que se houve pecado, nossa ofensa maior é contra Deus, não contra alguém. Davi entendeu isso depois de matar Urias e adulterar com a esposa dele. O clamor de seu coração para Deus foi “Contra ti, só contra ti, pequei” (Sl 51.4). Saul e Judas disseram: “Eu pequei”; mas o filho pródigo que voltou disse “Pai, pequei contra o céu e contra ti. Não sou mais digno de ser chamado teu filho” (Lc 15.21).
Arrependa-se. Sem verdadeiro arrependimento e quebrantamento, um pedido de perdão geralmente terá pouco efeito duradouro. Arrependimento flui ao nível do coração e permite perdão que flui para o coração da outra pessoa. Sem isso o perdão tende a caminhar da mente de uma pessoa para a mente da outra, sem mudar nada a nível do coração. Não é um acidente que quatro das sete cartas às igrejas em Apocalipse incluem um chamado ao arrependimento (2.5, 16; 3.3, 19). Arrependimento é a base não apenas para entrar na vida cristã, mas também para crescer de forma significativa nela.
Sinta contrição. Contrição é sentir a dor que causamos à outra pessoa. Precisamos pedir que Deus nos revele isso, tomando o tempo necessário para Ele fazer isso.
- Pedir perdão.
Seja objetivo. Não dizer “Perdoe-me qualquer coisa.” Não deixar a outra pessoa adivinhando sobre o que estamos pedindo perdão. Precisamos ser maduros e honestos conosco mesmo e com a outra pessoa quanto a identificar onde erramos ou como pecamos.
Assuma responsabilidade. Não condicione seu pedido de perdão com a frase “Se eu…” Verdadeira convicção de pecado não fica duvidando se errou ou pecou. Confessa, admita e se responsabiliza. Pior ainda é quando dizemos “Se você ficou ofendido…” ou “Se eu lhe ofendi…” Nessas frases jogamos a responsabilidade em cima da outra pessoa. Indicamos que se ela é tão sensível ou imatura que foi ofendida, então estamos pedindo perdão. Perdão do que? Da sensibilidade da outra pessoa? Assuma responsabilidade pelo mal que você fez.
Fale de você, não de outra pessoa. Foque em frases “eu”, “meu”, “mim” e não “você” e “seu”. Quando passa a falar da outra pessoa ao invés de falar de você, facilmente cai no papel de acusar ela e indicar os problemas dela.
Não procure se explicar. Cairá na armadilha de se justificar. Isso comunica claramente uma falta de verdadeiro arrependimento. Também pode levar a outra pessoa a parar de procurar resolver conflitos com você.
Feche bem seu pedido de perdão. Encerra seu pedido voltando a dizer “Me perdoe?” ou algo simples parecido. Então aguarde em silêncio a resposta. Muitas pessoas falam um bocado sobre seu pedido e não encerram desta forma.
Agradeça a graça cara, entendendo que custou a outra pessoa lhe perdoar. Não pense que é graça barata e fácil.
Avalie se precisa confrontar a outra pessoa em amor. Acima falamos de não nos justificar ou explicar. Ao mesmo tempo, muitos conflitos têm erros e pecados aos dois lados. Poucas vezes o conflito é entre um “santo” (pessoa certinha) e um “pecador” (pessoa errada). O confronto com a outra pessoa precisa ser com as coisas já resolvidas dentro de nós, quanto possível, sendo cheio do Espírito e com a humildade expressado em Gálatas 6.1.
- Restituir.
Faça restituição. Temos um ditado. “Não importa o erro que fazemos, tanto quanto o que fazemos depois.” Poucas pessoas dão seguimento a seu pedido de perdão com um compromisso de restituição. Sem isso, a tendência é nada mudar no relacionamento. Arrependimento verdadeiro pode ser reconhecido pelos seus frutos, pela restituição. Normalmente nossa restituição deve ser nos comprometer a fazer o oposto do que fizemos errado. Se já caímos desse mesmo erro ou pecado diversas vezes, possivelmente precisamos de tomar passos mais sérios do que tomamos no passado.
Havendo perdoado, esqueça o assunto. Perdão verdadeiro esquece o mal feito (veja Sl 103.12). Se lembramos do que aconteceu, não é mais com mágoa ou dor, nem para usar essa lembrança como acusação contra a outra pessoa.
Avalie se precisa de uma ajuda maior. Tiago diz, “Portanto, confessem os seus pecados uns aos outros e orem uns pelos outros para serem curados. A oração de um justo é poderosa e eficaz.” Pode ser que precisamos pedir à pessoa que ferimos, orar por nós. Pode ser que precisamos confessar para alguém além dessa pessoa e pedir que orem por nós.
Às vezes confessamos nossos pecados (erros, problemas) e pessoas oram por nós, mas continuamos com os mesmos problemas. Nada é resolvido. Nesse caso, precisamos voltar ao contexto de Tiago 5.16. Às vezes não é apenas um pecado, um erro ou um mal-entendido que precisa ser resolvido. É uma doença espiritual ou emocional que é mais arraigado. Nesse caso precisamos nos submeter a pessoas com autoridade espiritual e seguir as orientações e tratamento que eles indicam.
O círculo da confissão deve ser o círculo da transgressão. Normalmente um conflito deve ser resolvido individualmente, como também um confronto sobre pecado ou um pedido de perdão. Mas, no caso de isso haver acontecido diante de outras pessoas, o pedido de perdão deve ser feito individualmente e depois com o grupo. Por exemplo, se filhos ouvirem seus pais brigarem com gritos e ameaçar sair da casa, o casal precisa resolver isso entre si, com pedidos de perdão e compromissos de restituição. Mas, também precisam se sentar com os filhos, deixar claro em que erraram quanto ao que os filhos testemunharam e que já se perdoaram. Se percebem que fizeram mal para os próprios filhos, seria coerente mais um passo de pedir perdão dos filhos.
Tudo isto é trabalhoso demais? Sem dúvida haverá muitas situações simples que não requerem toda a profundidade expressa acima. Ao mesmo tempo, até essas situações simples podem se tornar encontros divinos através de aplicar alguns destes princípios ou dicas. Além disso, tem outras situações nada simples: conflitos sérios, pecados que ferem profundamente e crises relacionais. Nesses casos a profundidade acima será necessária para que o perdão seja realmente eficaz e transformador. Caminharemos de glória em glória, andando na luz e tendo plena comunhão uns com os outros.
Acima de tudo o Pai será glorificado. Não existe outra coisa que um verdadeiro filho mais deseja do que glorificar o Pai e trazer alegria para ele. Que assim seja!




