Babel começa no coração

gray concrete building under gray sky

por Ilaene Schuler

Antes de Babel se tornar uma torre, ela já era uma disposição do coração humano. A construção narrada em Gênesis 11 nasceu do desejo de segurança, reconhecimento e controle: “Façamos para nós um nome” e “não sejamos espalhados”.

A torre era visível, mas suas verdadeiras bases estavam escondidas: orgulho, controle e medo. Esses mesmos movimentos continuam presentes em nós e nem sempre parecem rebeldia. Muitas vezes, chegam disfarçados de competência, prudência e responsabilidade.

Orgulho: viver sem depender de Deus

O orgulho não se manifesta apenas quando alguém se considera melhor do que os outros. Ele também aparece quando acreditamos que conseguimos construir a vida, conduzir o ministério e garantir o futuro sem depender de Deus.

Planejar, trabalhar e desenvolver nossos dons são atitudes importantes. O problema começa quando transformamos capacidades recebidas de Deus em razões para viver como se não precisássemos dele. Aquilo que deveria produzir gratidão passa a alimentar nossa autossuficiência.

Controle: tentar eliminar as incertezas

Por trás do controle está o desejo de ocupar um lugar que pertence somente a Deus. Planejamos, organizamos e procuramos prevenir problemas — e tudo isso pode ser sábio. Entretanto, a responsabilidade se transforma em controle quando nossa segurança deixa de estar no Senhor e passa a depender do resultado dos nossos planos.

Queremos conhecer antecipadamente todo o caminho, evitar qualquer surpresa e garantir que tudo aconteça conforme esperamos. Assim, a organização deixa de ser uma ferramenta e se transforma em uma falsa fonte de segurança.

Oswald Chambers chama nossa atenção para a “alegre incerteza” da vida espiritual. Não se trata de viver sem direção ou responsabilidade, mas de reconhecer que podemos não saber qual será o próximo passo e, ainda assim, permanecer seguros porque conhecemos Deus. A fé não encontra paz por controlar aquilo que acontecerá amanhã, mas por confiar naquele que estará conosco quando o amanhã chegar.

Medo: acreditar que confiar é arriscado

Muitas tentativas de controle são alimentadas pelo medo. No fundo, perguntamos: “Se eu entregar o controle, será que Deus realmente cuidará de mim?”

O medo nos faz acreditar que depender de Deus é perigoso. Mas a fé começa justamente quando reconhecemos que nunca tivemos o controle que imaginávamos possuir. Podemos viver com expectativa, e não com ansiedade, porque nossa certeza não está nas circunstâncias, mas no caráter fiel de Deus.

Jesus nos liberta da necessidade de controlar

Jesus não veio apenas perdoar nossos pecados. Ele também veio nos libertar da necessidade de sermos o centro, da busca constante por reconhecimento, da obsessão pelo controle e do medo de confiar.

Babel pergunta: “Você consegue construir uma vida segura sem Deus?” O evangelho responde: “Você pode descansar porque sua vida está segura em Deus.”

Seguir Jesus não significa abandonar a responsabilidade, o planejamento ou o trabalho. Significa realizar tudo isso em dependência do Pai, reconhecendo que nossos dons vêm dele, nossos planos estão sujeitos à sua vontade e nosso futuro permanece em suas mãos.

Talvez a torre que precise cair hoje não esteja fora de nós. Talvez seja aquela que levantamos silenciosamente no coração sempre que dizemos: “Eu preciso estar no controle”.

Que construções temos levantado para evitar uma vida de verdadeira dependência de Deus?


Ilaene Schuler é discípula de Jesus, esposa de Daniel Vargas, missionária Sepal e Diretora do Instituto IIFD, do qual o ministério Igrejas Discipuladoras faz parte. Atua no Brasil e na América Latina servindo igrejas por meio do Movimento Igrejas que Intencionalmente Fazem Discípulos (IIFD).

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